Neste 20 de junho, Dia do Município de Ourém, o Presidente da Câmara Municipal, Luís Miguel Albuquerque, dirigiu um discurso a todos os munícipes na Sessão Solene que decorreu esta tarde no Teatro Municipal de Ourém.
Disponibilizamos aqui e na íntegra o discurso do Presidente da Câmara Municipal de Ourém.

“Dou início a esta minha intervenção felicitando todas as individualidades, associações, empresas, instituições e funcionários que acabámos de homenagear. O vosso percurso merece o nosso aplauso, e reitero uma palavra de profundo agradecimento pelo valioso contributo e pela relevância dos serviços que têm prestado em prol do concelho de Ourém.
Uma referência especial ao Luís Oliveira, um homem de elevados préstimos à causa pública, que nos deixa um legado enquanto autarca com mais de 25 anos, mas também pelo seu exemplo enquanto cidadão, que sempre colaborou em causas sociais, recreativas e culturais. Um percurso de um Homem que se afirmou no seio da sua freguesia e no concelho de Ourém, que é um exemplo de dedicação em prol dos outros. Um cumprimento especial a toda a família e que saibamos honrar o legado que nos deixou.
Celebramos este Dia do Município com enorme respeito por aqueles que serviram e servem o nosso território.
Este ano distingue-se por uma data que se impõe à nossa memória. O dia 28 de janeiro. E não o digo por força da circunstância. Digo-o porque todos o sentimos, todos o vivenciámos de uma forma muito emotiva. Esta data passou a fazer parte da nossa memória coletiva. Não apenas pela violência da tempestade Kristin, mas pela revelação de Ourém na resposta ao rasto de destruição que ela nos deixou.
Nessa madrugada, o concelho acordou diferente. Em poucas horas, árvores centenárias tombaram, estradas ficaram intransitáveis, edifícios públicos sofreram danos consideráveis, casas perderam telhados e milhares de pessoas ficaram sem eletricidade, sem água e sem comunicações.
Percebemos imediatamente que estávamos perante algo que nunca tínhamos vivido. Que aquilo que julgávamos garantido, até as coisas mais simples, podiam simplesmente desaparecer de um momento para o outro. E foi precisamente, nesse momento que, Ourém, se revelou maior do que a adversidade que enfrentava.
Mostrou-se grande, através da dedicação dos muitos que trabalharam até à exaustão, deixando os seus próprios problemas para segundo plano para ajudarem os outros. Durante aqueles dias, não foi fácil distinguir quem estava a ajudar e quem precisava de ajuda. Foram momentos e dias de união, solidariedade e, porque não dizê-lo, de superação. Fomos Ourém!
É por isso que esta sessão solene tem, este ano, um significado ainda mais profundo.
Hoje, além de homenagearmos pessoas individuais e coletivas cujo percurso merece o reconhecimento público, também quisemos prestar um tributo, a todos aqueles que trabalharam, dia e noite, para conseguir minorar as dificuldades de todos os que mais precisavam da nossa ajuda. Uma palavra também de agradecimento a todos os que vieram de fora do nosso Concelho para nos ajudar, e foram muitos, e que jamais esqueceremos.
OBRIGADO A TODOS!
Conseguimos perceber, mais uma vez, que a verdadeira grandeza das pessoas, não se mede quando tudo corre bem. Mede-se quando chega a dificuldade. E quando chegou, Ourém respondeu e disse presente.
Respondeu com coragem, com solidariedade, com competência e, acima de tudo, com humanidade. A tempestade derrubou muitas coisas, mas também nos mostrou que há outras que dificilmente cairão. Não caiu o espírito de missão dos bombeiros, das forças de segurança e dos militares. Não caiu a disponibilidade dos Presidentes de Junta de Freguesia e das nossas empresas. Não caiu a solidariedade dos vizinhos e das centenas de voluntários, nem caiu a dedicação dos nossos funcionários. E enquanto isso acontecer, haverá sempre futuro para Ourém.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Apesar dos números não conseguirem traduzir tudo aquilo que vivemos, ajudam-nos a perceber a dimensão daquilo que aconteceu.
Dos cerca de mil e quinhentos quilómetros de estradas asfaltadas do concelho, mais de mil quilómetros ficaram totalmente obstruídas.
Todas as escolas do concelho sofreram danos. No total foram 34 os estabelecimentos escolares afetados.
O nosso tecido empresarial sofreu um rombo colossal. Os prejuízos apurados nas empresas ultrapassam os 23 milhões de euros.
No património e nas infraestruturas municipais, os prejuízos estimados ultrapassam os 31 milhões de euros, sendo necessários cerca de 40 milhões para devolver integralmente ao concelho as condições existentes antes da tempestade, e onde se inclui a recuperação da nossa rede viária.
Perante esta trágica realidade, poderia ser legítimo baixar os braços. Mas Ourém escolheu, mais uma vez, avançar!
Nas primeiras horas após a tempestade, mais de 450 operacionais estiveram no terreno. A eles juntaram-se cerca de 120 pessoas vindas de outros concelhos, e mais de duas dezenas de empresas, que colocaram meios e recursos próprios ao serviço de todos.
Rapidamente as principais vias voltaram a ligar as nossas freguesias. As escolas reabriram sem qualquer interrupção do calendário escolar. Os serviços retomaram a atividade e milhares de pessoas puderam regressar às suas rotinas.
Não foi obra do acaso, foi resultado de uma enorme mobilização coletiva. Foi trabalho de quem esteve no terreno desde o primeiro minuto. Foi fruto de decisões rápidas, muito esforço e, sobretudo, uma grande capacidade de colocar as pessoas no centro das nossas preocupações. Desde a primeira hora assumimos essa prioridade. Ninguém poderia ficar para trás!
Organizámos equipas técnicas e acompanhámos as famílias mais vulneráveis. Criámos respostas de emergência e disponibilizámos espaços para acolhimento e apoio à população. Mobilizámos voluntários, distribuímos bens essenciais e trabalhámos, sem descanso, para que os apoios chegassem o mais rapidamente possível.
Hoje podemos dizer, com orgulho, que estamos na linha da frente, com o processo de análise e validação das candidaturas dos danos causados nas casas particulares.
Das 3758 candidaturas submetidas para recuperação de habitações próprias permanentes, cerca de 2 900 já foram pagas, representando um apoio próximo dos treze milhões de euros. Foram indeferidas por não cumprirem as regras do aviso, cerca de oitocentas e cinquenta, existindo, por isso, muito poucas candidaturas em análise e que estão a aguardar esclarecimentos por parte dos munícipes.
Também o património cultural sofreu danos significativos. O Castelo e Paço dos Condes de Ourém, símbolo maior da nossa história e da nossa identidade, foi um dos espaços mais afetados. Mas poucos meses depois, ainda no início deste mês, conseguimos que as suas portas reabrissem a tempo de poder voltar a ser visitado durante a época alta.
A nossa principal preocupação neste momento é a floresta, uma riqueza que tínhamos no Concelho e que foi totalmente devastada. Estamos a desobstruir os caminhos florestais e vicinais, podendo dizer-se que, neste momento, mais de 95% dos caminhos estarão desobstruídos. O que representou um grande esforço de todos nós, onde se incluem, com grande quota de responsabilidade, as Juntas de Freguesia, que já conseguiram desobstruir mais de 1400 kms de vias, o que demonstra bem a devastação com que fomos atingidos, e o trabalho que já foi realizado.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Houve um momento, ainda no auge do caos provocado pela tempestade, e entre as inúmeras preocupações, que tivemos que tomar uma decisão. A de realizar, ou não, a FeirOurém. Seria compreensível cancelá-la, mas rapidamente percebemos que um concelho não se recupera apenas com máquinas, obras e financiamentos. Recupera-se também com a alegria de voltarmos a estar juntos, e foi por isso que decidimos avançar.
A FeirOurém está a decorrer desde o passado dia 18 e prolonga-se até amanhã. Este certame é o lugar onde encontramos as nossas associações, as nossas empresas, os nossos artesãos, as nossas freguesias e instituições, as nossas famílias, e é o orgulho nas nossas raízes e representa a confiança nas nossas capacidades.
Este ano, talvez mais do que nunca, a FeirOurém simboliza uma vitória coletiva. Uma prova de que não ficámos presos ao dia 28 de janeiro. Soubemos sofrer, mas também soubemos continuar.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Um concelho não se mede apenas pela forma como enfrenta as crises, mede-se também pela capacidade de continuar a ambicionar mais para as suas pessoas. E nós queremos mais.
Queremos mais na saúde, porque não nos resignamos a que 18 000 oureenses continuem sem médico de família. Conhecemos a angústia de quem precisa de uma consulta e não a consegue marcar e sabemos o que representa, para muitas famílias, ter de sair do concelho para procurar respostas.
É uma realidade que nos preocupa e que nos levou a criar incentivos à fixação de médicos e a apostar nas teleconsultas. Fomos pioneiros no projeto Bata Branca, que só no último ano assegurou, mais de 15 mil consultas e disponibiliza atualmente cerca de 900 horas mensais de cuidados de saúde à nossa população.
Mas sejamos claros. Há um limite para aquilo que um município pode fazer sozinho. A coesão territorial também se mede pelo acesso à saúde. Sabemos que ainda há muito caminho pela frente e não deixaremos de o percorrer.
Continuaremos a defender mais médicos e mais respostas. Continuaremos a defender um Serviço de Atendimento Permanente para Ourém. Não por uma questão política, mas porque acreditamos que cuidar das pessoas é a primeira obrigação de quem exerce funções públicas.
A este propósito, posso anunciar, em primeira mão, que muito brevemente mais dois médicos do Serviço Nacional de Saúde, escolheram o nosso Concelho para trabalhar, o que nos deixa muito satisfeitos e conscientes de que tudo estamos a fazer, junto da Unidade Local de Saúde da Região de Leiria, para podermos melhorar a prestação de cuidados primários às nossas populações.
Também queremos mais na habitação. Ainda há famílias para quem o acesso a uma habitação digna continua a ser um desafio. Temos vindo a trabalhar para dar resposta a situações de vulnerabilidade que exigem soluções concretas. No âmbito da Estratégia Local de Habitação e do Programa 1.º Direito, continuamos a acompanhar famílias que vivem em condições precárias e a criar respostas para quem mais precisa.
Estão praticamente concluídas as empreitadas dos cinco apartamentos municipais de emergência, um investimento superior a 350 mil euros, que permitirá reforçar a capacidade de resposta do Município em situações particularmente delicadas.
A tempestade acentuou algumas destas dificuldades e criou outras novas. Por isso, estamos a trabalhar, em articulação com a Estrutura de Missão, e com a Fundação Jerónimo Martins, para avançar com a reconstrução de 40 habitações afetadas pela tempestade.
Ainda na habitação, temos tido grandes dificuldades em conseguir assinar os contratos de financiamento com o IHRU- Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, que estão contratualizados, mas temos esperança de que até final do presente ano, todos os procedimentos administrativos estejam concluídos, de forma a que consigamos finalmente iniciar as obras de construção de cerca de cem apartamentos para arrendamento acessível.
Também queremos mais nas acessibilidades e nos transportes, porque um concelho equilibrado não se constrói apenas nos centros urbanos. Constrói-se ligando freguesias e aproximando pessoas. Com a garantia de que se podem deslocar para estudar, trabalhar e viver com dignidade, e foi por isso que adquirimos quatro novas viaturas, sendo duas delas elétricas que irão reforçar os transportes urbanos já existentes no Concelho, nas Cidade de Ourém e Fátima, e que queremos alargar a outras freguesias do Concelho.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Os números continuam a demonstrar um concelho em crescimento.
Há mais famílias, mais alunos, mais trabalhadores e mais empresas. Cada vez mais pessoas escolhem Ourém para viver, trabalhar e investir. Escolhem-no porque encontram aqui segurança, qualidade de vida e dinamismo económico. Encontram boas escolas, uma programação cultural de excelência e uma rede associativa extremamente dinâmica.
Ourém tem hoje cerca de 6600 empresas ativas. Empresas que, entre 2018 e 2024, aumentaram o seu volume de negócios em cerca de 65%, ultrapassando atualmente os dois mil milhões de euros.
Empresas que empregam mais de 21 mil pessoas e ajudam a explicar uma taxa de desemprego próxima de 1,7% da população residente, valor residual e que demonstra bem o dinamismo do nosso tecido empresarial.
São números que nos orgulham, mas que, acima de tudo, nos responsabilizam. Porque crescer não é um objetivo em si mesmo. O verdadeiro objetivo é garantir que esse crescimento melhora a vida das pessoas.
Deixo alguns exemplos desse trabalho:
Desde 2018, o Município apoiou mais de 1800 candidaturas no âmbito do Apoio à Natalidade e à Infância, num investimento superior a 2,7 milhões de euros.
Hoje mesmo, inaugurámos a Creche das Louçãs, um equipamento preparado para acolher 42 crianças e apoiar dezenas de famílias, que representa um investimento superior a um milhão de euros.
Também na manhã de hoje, inaugurámos um conjunto de obras que representam um investimento municipal superior a 4 milhões de euros e que melhoram, de forma muito concreta, a vida das pessoas que cá vivem, que cá trabalham ou que apenas nos visitam.
Falo da nova ligação viária na cidade de Ourém, correspondente ao prolongamento da Avenida D. Nuno Álvares Pereira até à entrada nascente da EN113, uma obra há muito desejada e que veio agora facilitar a circulação e qualificar esta entrada da cidade.
Falo também da requalificação das Ruas Gregório Correia e de Castela, que criam um novo eixo urbano e reforçam a ligação entre diferentes zonas da cidade.
E falo ainda da intervenção realizada na EN356, em Rio de Couros, com a construção de passeios, a reabilitação da Ponte 164 e a melhoria das condições de segurança e mobilidade.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Enquanto recuperamos um território que sofreu prejuízos próximos dos 40 milhões de euros, temos em curso cerca de 45 milhões de investimento estruturante. É talvez o melhor indicador de que Ourém continua a avançar.
A ampliação do Parque da Cidade até à Ponte dos Namorados está em curso, requalificando mais um troço da Ribeira de Seiça.
Avançamos com a expansão das Zonas industriais de Ourém, Caxarias e Urqueira, num investimento massivo para fixar riqueza e reforçar a competitividade territorial, sendo que esta última já se encontra em obra, sendo que a ampliação da Zona Industrial de Ourém, tem a quase totalidade dos terrenos adquiridos ou já negociados.
Avançamos com o novo Centro de Saúde de Ourém, uma obra que representa uma reivindicação antiga e uma resposta moderna, aos novos desafios que a saúde nos traz diariamente, e que permitirá que os profissionais de saúde possam ter melhores condições de trabalho.
Avançamos com as obras de requalificação do antigo edifício da Rodoviária, transformando-o na nova Loja do Cidadão, criando uma nova centralidade na Cidade.
Está em curso a requalificação da Rua Dr. Júlio Constantino em Fátima, uma via central da Cova da Iria e que não tinha o mínimo de condições de segurança para todos os seus utilizadores. Ainda em Fátima, avançamos com a construção de dois novos campos sintéticos desportivos, junto ao Estádio Municipal e estamos a concluir a requalificação da Avª. Irmã Lúcia de Jesus, e a segunda fase da requalificação da Estrada de Minde, obras que queremos inaugurar no próximo dia 12 de julho, dia em que iremos assinalar mais um aniversário da elevação de Fátima a Cidade.
Temos ainda diversas intervenções estruturantes previstas para todas as Freguesias do nosso Concelho, de forma a que todas tenham as mesmas oportunidades em termos de qualidade de vida.
Mas permitam-me que vos que as obras mais relevantes não são só aquelas que vemos. Há uma obra invisível, decisiva e muito exigente que se constrói todos os dias: A confiança! E isso só se conquista com muito trabalho e com a presença constante no terreno, junto das pessoas.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
No final de janeiro, há poucos meses atrás, muitos perguntavam quanto tempo demoraria Ourém a recuperar.
É uma pergunta legítima. Mas hoje, olhando para trás, penso que a pergunta devia ser “Que concelho vamos ser depois da tempestade?” A resposta está nesta sala.
Está naqueles que hoje homenageamos e em todos os que recusaram baixar os braços. E, por isso, hoje não celebramos apenas aquilo que fizemos. Celebramos aquilo que somos. Um concelho com história, mas sem medo do futuro. Um concelho que sabe de onde vem, mas que continua a ambicionar mais. Um concelho que, perante a adversidade, escolheu unir-se em vez de se dividir.
Como Oureense e como Presidente da Câmara, tenho orgulho no caminho que fizemos, tenho confiança no caminho que estamos a fazer e tenho uma enorme esperança no caminho que ainda vamos percorrer. Porque o futuro é um lugar que construímos todos os dias. Juntos.
E agora permitam-me uma última reflexão.
Se alguém me perguntar, daqui a muitos anos, o que aconteceu em Ourém em janeiro de 2026, não começarei por falar da tempestade.
Falarei das pessoas.
Da coragem. Da união. Da generosidade.
Da notável capacidade de resiliência cívica perante a adversidade.
E essa é uma história que merecerá ser contada! Todos os dias! Todas as horas!
Viva o Concelho de Ourém!”
Luís Miguel Albuquerque
Presidente da Câmara Municipal de Ourém